Dia 26 de novembro 2014 a UNESCO reconheceu a Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

O que isso significa ?
Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade é uma distinção criada em 1997 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, para a proteção e o reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, abrangendo as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade, para as gerações futuras.

Na própria definição está bem claro : « as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade ».

Então, a Capoeira ser reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade não quer dizer que ela é propriedade de ninguém e que pertence a todos. Nada disso. A Capoeira tem ancestralidade e pertence ao povo e a cultura africana do Brasil.

Capoeira é de todos ?
Se uma pessoa branca, com responsabilidade na Capoeira, ainda mais na Capoeira Angola, afirmar que « a Capoeira pertence a todos e não é propriedade de ninguém », além de distorcer, para o seu proprio beneficio, o significado do que foi definido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, essa pessoa ainda reproduz um comportamento colonialista característico da sociedade brasileira e reforça o ideal de embranquecimento da cultura negra brasileira.

Então, a meu ver, essa declaração está muito equivocada, tão equivocada quanto aquela que afirma que a velha Capoeira morreu.

Pois é, é matar de novo o povo preto brasileiro. É retirar do povo negro a sua cultura, é roubar e exterminar de novo os corpos e almas dos africanos do Brasil. É simplesmente uma atitude colonialista.

Aqueles que fazem da sua profissão o ensinamento da Capoeira, e como garantia de qualidade o ensinamento da Capoeira Angola, tem uma responsabilidade de manter a verdade histórica e cultural. Não incluir a dinâmica racial e negar a resistência do povo negro no seu principio de ensinamento é negar, é desinformar e é de novo apagar a presença do negro e o reconhecimento das suas ciências e sabedorias. Não incluir a perspectiva racial no seu ensinamento da Capoeira Angola é contribuir ao apagamento da historia do negro e do seu protagonismo na construção do mundo de forma global e da cultura brasileira em particular.

Cara amigo branco. Não é porque você faz capoeira há 30 anos que a capoeira te pertence e que você faz parte. Não é por isso que nós brancos podemos nos permitir adaptar e transformar essa cultura. Ainda menos, desrespeitar essa cultura querendo julgar e dizer o que deve ser feito e o que não deve ser feito. Pensar que podemos participar da sua evolução ou não evolução. Porque não, a gente não faz parte dela. Só estamos passando nela, nos somos convidados. E, meu camarada branco, seu titulo de Mestre é so um nome dado a você. A Capoeira é negra e tem fundamentos, ancestralidade, e seu titulo não faz de você pertencer a ancestralidade da Capoeira.

A Capoeira é para todos ?
Ao contrario da cultura Eurodescendente que tem costume de tornar qualquer conquista a sua propriedade, muitas culturas não brancas e aqui a cultura Afrodescendente brasileira, são culturas de acolhimento e de braços abertos. Prova é que hoje em dia somos muitos brancos e europeus praticando e ensinando Capoeira Angola com consentimento e confiança dos mais velhos, os verdadeiros zeladores da cultura da Capoeira.

Isso não quer dizer que podemos nos apropriar e transformar essa cultura ancestral. Nós brancos temos o dever de refletir, debater, discutir sobre o nosso papel como responsáveis dentro da Capoeira Angola e como podemos contribuir para sua sobrevivência e não para seu apagamento como cultura negra. Devemos sempre repensar e desconstruir o nosso comportamento colonialista. « Steph, você tem que matar o branco dentro de você », como falou meu camarada Contra-Mestre Coqueiro do Ngoma.

Lembra, a Capoeira é para todos mas ela não é de todos.

A Capoeira estava viva antes de ela nascer, e podemos ter caído ontem de uma rasteira que ela vai dar amanha.

O único jeito da gente contribuir (isso não quer dizer pertencer) a essa ancestralidade é a gente lutar para que a Capoeira não seja desapropriada.

Por que, nós brancos temos tanto medo de afirmar que a Capoeira é negra e africana ?
O que esperar de uma sociedade onde o negro sempre serviu o branco ? Uma sociedade fundada sobre a ideia de que o negro é inferior ao branco, ao ponto de que hoje ainda muita gente não entende o significado de « Vidas negras importam ».

E nessa sociedade, quando o branco chega na Capoeira, descobre que segredos, conhecimentos e responsabilidades são detidos por negros. Que o mestre ou a mestra que dirige a escola e a roda é um homem negro ou uma mulher negra. Para o branco que foi acostumado a vida toda a ver a população negra nas camadas inferiores e serviçais, isso é chocante. A única forma de justificar sua presença na Capoeira não seria descredibilizar o outro e começar o processo de embranquecimento ?

Fácil é ensinar que fundamentos é camisa por dentro da calça, sapato obrigatório, e que a bateria é assim e não assada…mas por que é tanto difícil um branco ensinar para seus alunos que a Capoeira não é dele, mas do povo negro ? Que o que ele ta ensinando não lhe pertence, e que ele é só um convidado ? Talvez é o medo de não poder mais justificar o seu protagonismo como representante de uma arte que afinal não é sua? Qual é o medo ?

Ter a honestidade de reconhecer que Capoeira é para todos mas não é de todos, não faria da gente melhores capoeiristas ainda?

Capoeira não é movimentos, é fundamentos, e até hoje temos o privilegio de ser alunos de mestres e mestras negros e negras. Mas amanha quem serão nossos Mestres ? Vamos refletir para uma prática e uma educação descolonial através da Capoeira ?

Contra-Mestre Steph (Ngoma Paris).
Fotografo e designer,
Steph é aluno do Mestre Anastácio Marrom
do grupo Ngoma Capoeira Angola.